A EXPECTATIVA DA CURA (OU DA IMORTALIDADE)
A ciência médica sofreu enormes
transformações nas últimas décadas.
Tudo foi estudado e desenvolvido para
proporcionar ao ser humano uma longa
existência.
A descoberta da penicilina na época
da segunda guerra mundial já se constituiu
num grande avanço, pois permitiu à humanidade o combate às graves epidemias
infecciosas de então.
A perspectiva de pouco mais de
quarenta anos de sobrevida que se tinha
no início do século passado, elevou-se
de modo impressionante. Sabemos que
nosso país figurará no ano de 2030, entre
os dez maiores do mundo quanto ao
percentual de idosos. Isso significa que
as pessoas com mais de sessenta anos
morrem cada vez menos.
É claro que essa mudança de cenário -
antes éramos o grande país jovem
do planeta - deve-se à capacidade que
temos hoje de tratar doenças sem perspectiva
curativa até a bem pouco tempo.
Hoje dispomos de próteses que permitem
que o coração continue batendo, que
os olhos continuem vendo, que as pernas
sigam movimentando, entre outros
recursos especiais. Essa equação da longevidade
foi também alicerçada no conhecimento
dos caminhos da prevenção,
graças aos quais está sendo possível
envelhecer com mais qualidade.
E qual foi o efeito colateral da mudança?
O ser humano está bem adaptado à idéia de viver até o centenário. Todos
seguem fazendo planos para a posteridade,
mesmo estando com mais de
oitenta. Todos também já compreenderam -
O HOSPITAL - que vai ser preciso trabalhar até um
pouco mais tarde. Entretanto, uma coisa
não mudou; as dores da velhice, os cansaços,
as limitações, as dificuldades de
locomoção. Esses são sintomas para os
quais a medicina ainda não arrumou solução
definitiva, mas tão somente paliativa.
A partir dos anos setenta, um
grande número de jovens médicos buscou
a especialização nas diversas áreas
clínicas e cirúrgicas. Havia franco crescimento
de ciências como a engenharia
e a física médicas, o que assegurava a
certeza do desenvolvimento das especialidades
médicas. Esse modelo baseado
em especialistas e em tecnologia permitiu
uma notável evolução da capacidade
de diagnóstico sendo, por conseqüência
a pedra de toque do aumento
na expectativa de vida do ser humano.
Essas transformações mudaram
o nosso patamar de velhice; ela surge
bem mais tarde e dura bem mais. Quando,
no entanto ela chega com todos os
seus comemorativos, são necessários
uns quatro ou cinco especialistas para
atender a todas as demandas. É essa a época de nossas vidas em que os órgãos
de tanto trabalhar já estão cansados e
não conseguem funcionar de modo adequado. É uma questão de desgaste, e o
especialista por sua vez atinge um limite
de atuação, apesar de todos os modernos
recursos da medicina.
O que desejo dizer em outras palavras, é que continuamos a ser mortais!
Estamos ainda sujeitos ao final de vida,
pontuado pelas co-morbidades sem alternativas
terapêuticas curativas.
Aqueles que como eu nasceram
antes de toda essa revolução médica,
conhecem bem a expressão "médico de
família"; todos tivemos o nosso. Era o
doutor vinha na nossa casa, cuidava da
família toda, chegava a ser um conselheiro
e um amigo; tomava até um aperitivo
aos domingos com a gente. Eles foram
gradativamente sendo substituídos
por muitos doutores, cada um cuidando
de um segmento corporal.
Pois bem, eu recomendo a todos
aqueles que já passaram dos sessenta
ou setenta anos para ficarem atentos a
essa nova realidade que expus acima. E
como a história dá muitas voltas, os médicos
de família estão surgindo novamente.
Talvez sem a intimidade do passado,
já que os tempos mudaram, mas com a
mesma visão do cuidado da saúde como
um todo, da boa relação médico-paciente
e principalmente, de se constituir na
referência de sua clientela.
Até a próxima.
Dr. Enéas Rocco
Cardiologista do HMSC
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